Organizações Não Governamentais Decretam Fracasso da Cimeira da Alimentação
Prensa
PublicOnline, Internet, 13-6-02
http://jornal.publico.pt/2002/06/13/Sociedade/S10.html
Organizações Não Governamentais Decretam Fracasso da Cimeira da Alimentação
Por Carlos Picassinos, Roma
"Nem uma só palavra sobre o desenvolvimento sustentável. [A declaração final da Cimeira] não passa de uma promoção às biotecnologias", acusou ontem a física indiana Vandana Shiva, durante a conferência sobre o papel das mulheres no mundo rural promovida no âmbito dos trabalhos da II Cimeira Mundial da Agricultura, que hoje termina em Roma.
Shiva, uma das mais influentes contestatárias aos organismos geneticamente modificados, é uma das expoentes do movimento das organizações não governamentais (ONG's) que se reuniram numa contra-cimeira paralela à reunião das Nações Unidas. Ontem, o dia de trabalhos na sede da FAO - a organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação - foi dedicado às ONG's, que, numa conferência muito concorrida, não hesitaram em decretar a falência desta cimeira, "tomada refém pela falsa propaganda", e a derrota da luta contra a fome face "à promoção das biotecnologias".
Vandana Shiva referia-se à breve passagem da declaração final da cimeira, aprovada logo no primeiro dia dos trabalhos, em que, graças às pressões dos Estados Unidos, se defende o recurso a novas tecnologias, "de forma segura e adaptada às condições específicas" de cada região.
"Infelizmente, todo o processo de decisão, as negociações no âmbito da ONU e a ciência foram influenciados pela falsa propaganda. Isto constitui um perigo para o mundo. Precisamos de mais honestidade, mais verdade e mais democracia", exortou. Daqui se compreende o apelo lançado pelo movimento "no-global" aos responsáveis da FAO para que se assumam como "os ministros da alimentação" do mundo e se demarquem das políticas traçadas pela Organização Mundial do Comércio. "Embora a agenda da cimeira tenha sido derrotada, não podemos abandonar o sistema das Nações Unidas de combate à fome no mundo", salvaguardou a cientista.
Esta dialéctica esteve presente ao longo dos trabalhos da cimeira e foi evidente anteontem quando o grupo dos países do grupo Cairns - que agrupa 18 nações partidárias da liberalização do comércio mundial, entre as quais se incluem Brasil, Argentina, México, Canadá ou Austrália - acusou os Estados Unidos de não cumprirem os acordos assumidos a nível internacional e de continuarem a libertar grandes subsídios para a agricultura, apesar do estipulado na recente cimeira da Organização Mundial do Comércio, em Doha.
Esta acusação é também partilhada pelo português João Vieira, da Confederação Nacional de Agricultura (CNA), a única estrutura portuguesa representada no fórum das ONG's e que reivindica a revisão do "Farms Bill", norte-americano, e da Política Agrícola Comum, da União Europeia, em nome "da soberania alimentar dos Estados ou de um grupo de Estados".
João Vieira sustenta que para evitar a "total desregulação dos mercados" cada país "deve ter o poder de organizar as suas produções". "Desta forma contribuímos na luta contra a fome no mundo e impedimos o domínio das multinacionais" da alimentação. O representante da CNA, e único português no movimento internacional "Via Campesina", defende também o fim dos organismos geneticamente modificados e manifesta-se preocupado pelo fraco debate que esta questão tem merecido em Portugal.
Ontem, à margem das cimeiras, cerca de quarenta camponeses de 16 países, liderados pelo conhecido agricultor francês José Bove, ocuparam um campo de cultivo de transgénicos, nos arredores de Roma, e, sem danificar a plantação, estenderam um enorme plástico em forma de preservativo como símbolo da luta das ONG's contra os efeitos da biotecnologia na agricultura.
Volver al principio
Principal- Enlaces- Documentos- Campañas-- Eventos- Noticias- Prensa- Chat