Línguas mortas


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Jornal da Ciência, e-mail 2093, Internet, 9-8-02
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Línguas mortas



Por Léo Schlafman


Num mundo em transmutação vertiginosa não é de espantar que fenômenos de comportamento cruzem as sociedades como cometas luminosos ou estrelas cadentes.

Enquanto nascem duas ou três novas religiões por dia (num total de 10 mil), 25 línguas morrem a cada ano (de um total de 6 mil). Nenhum dos dois fenômenos é novo. Há dois milênios a expansão do latim, língua que servia à administração do Império Romano, provocou a extinção de grande número de línguas.

Hoje, no ritmo exigido pela globalização, prevê-se que metade das línguas faladas no planeta estará erradicada até o fim do século.

O desaparecimento de uma língua não é grave em si apenas pela perda de mais um idioma, mas quando uma delas morre, no interior da África, na Ásia profunda, em aldeias, entre os índios americanos ou brasileiros, é toda uma visão de mundo compreendida no léxico que desaparece também.

Antes da chegada dos europeus ao Brasil, 1.175 línguas eram faladas por índios (cálculo do lingüista Aryon Rodrigues). Provavelmente só restam 180 delas. Todas correm risco de extinção.

O abandono de uma língua é sempre resultante de enfrentamento entre língua dominada e língua dominante - seleção natural de tipo neodarwinista.

No interior mesmo da sociedade em que a língua materna ameaça desaparecer é visível a luta entre a língua ancestral e aquela - inglês, espanhol ou mesmo o português da época das navegações - que permite a inserção econômica.

O imperialismo lingüístico é uma variante dos aspectos lingüísticos do imperialismo. Como disse o estudioso Ricardo Salles, a força atual não é do inglês em si, mas da expansão da economia e da cultura dos EUA.

A língua é secundária, vem com o resto. Ele acha que tentar traduzir termos como shopping ou funk é esforço inútil. Não são as palavras que importam, mas conceitos, idéias, instituições.

De maneira geral, os homens preferem falar a língua que lhes permite se movimentar no planeta, não aquela que os retém na aldeia natal. Péssimo negócio para as línguas, pior ainda para culturas ou religiões que só subsistiam graças à língua.

Ernst Cassirer (Linguagem e mito) mostrou como todo conhecimento teórico parte de um mundo já enformado pela linguagem, e tanto o historiador, quanto o cientista, e mesmo o filósofo, convivem com os objetos exclusivamente ao modo como a linguagem os apresenta.

Para Humboldt, a diversidade entre as várias línguas não era questão de sons e signos distintos, mas de diferentes perspectivas do mundo. Isto é, quando se perde a língua se perde também a perspectiva.

Nos relatos da Criação de quase todas as grandes religiões culturais, a palavra aparece sempre unida ao mais alto Deus criador. Pensamento e sua expressão verbal costumam ser concebidos como uma só coisa. O coração que pensa e a língua que fala se pertencem necessariamente.

As diversidades, tão necessárias ao comportamento humano, expressam-se pela linguagem, e se adaptam, apesar dos atritos criativos, entre elas, como a mão e a luva.

Mais do que isto, como disse Lévi-Strauss parafraseando Pascal, a língua é uma razão humana que tem razões que o próprio homem desconhece...

Lacan dizia, como prova da dependência criativa das línguas, que nenhuma linguagem pode dizer toda a verdade de outra linguagem, porque ambas são apenas elementos dispersos de uma linguagem inicial e onipresente.

Freud explica: 'Tudo depende da linguagem'.

. Artigo publicado no 'Jornal do Brasil'
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