Teste questiona potencial de 'biofábricas'
Prensa
Jornal da Ciência, Internet,  26-3-02
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Teste questiona potencial de 'biofábricas'
Droga produzida no leite de ovelhas transgênicas para tratar doenças graves como fibrose cística e enfisema teve seus testes em humanos suspensos, informou a rede de notícias britânica BBC. A suspensão dos testes lança dúvidas sobre o potencial do uso de animais geneticamente alterados como 'fábricas' de proteínas.
Os cientistas da PPL Therapeutics, a empresa britânica que criou a ovelha clonada Dolly, querem entender exatamente por que a substância levou à piora do estado de alguns pacientes do teste clínico antes de seguir com os experimentos em larga escala que abririam o caminho para o mercado.
Essa seria apenas mais uma história de teste clínico interrompido, não fosse pelo fato de o medicamento ter sido isolado do leite de uma ovelha transgênica.
O tropeço acende um sinal amarelo sobre as promessas em torno do potencial da biotecnologia para revolucionar a medicina.
A comunidade científica garante que não há razão para descrédito. 'Acontece uma coisa dessas e as pessoas começam a duvidar do potencial do uso de animais como fábricas de proteínas', diz Adilson Leite, cientista que cria plantas transgênicas na Unicamp. 'Isso não tem fundamento.'
Segundo ele, estudos já mostraram que a técnica de utilizar animais modificados para produzir substâncias originárias de outros organismos é não só viável, como interessante. Sem falar que há anos bactérias produzem insulina para uso humano, sem nenhuma reclamação dos diabéticos.
O que não se pode esperar, segundo os pesquisadores, é que a solução para todos os problemas venha do dia para a noite.
'É tudo muito novo, não é nenhuma surpresa esse tipo de resultado', diz Rodolfo Rumpf, da Embrapa, 'pai' da vaquinha Vitória, o primeiro animal clonado no Brasil. 'Nós nunca prometemos a galinha dos ovos de ouro para amanhã', afirma.
As ovelhinhas da PPL, nascidas com um gene humano inserido artificialmente em seu DNA, estavam produzindo em seu leite a proteína alfa-1-antitripsina (AAT), uma substância que existe no corpo humano, mas falta em pacientes com fibrose cística ou enfisema hereditário.
A idéia era ministrar a tal proteína em inalações, com um equipamento criado pela Bayer.
Os testes chegaram até a chamada fase dois, já envolvendo humanos. Embora os resultados em geral tenham sido positivos, alguns pacientes não conseguiram concluir o tratamento, desenvolvendo maior dificuldade respiratória.
A FDA (agência que regulamenta drogas e alimentos nos EUA) achou que os resultados eram inconclusivos sobre o porquê de esses pacientes não poderem ir até o final e pediu análises mais detalhadas antes de autorizar a fase três, feita com grandes grupos de voluntários - a última antes de o medicamento ir ao mercado.
Novo teste foi preparado com 30 pacientes, por 60 dias, para determinar a razão dos problemas. Enquanto isso, PPL e Bayer suspenderam todas as suas atividades preparatórias para os testes de fase três, o que deve atrasar em pelo menos dois anos a chegada da AAT ao mercado, o que agora deverá acontecer em 2007.
Entre as possíveis causas para as falhas do tratamento, os cientistas cogitam a forma de administração, a dose, a pureza e questões ligadas à formulação. Em resumo: tudo -o problema pode estar em qualquer fase do processo. Mesmo assim, há algumas pistas de onde deve estar o 'x' da questão.
'Esse problema deve estar mais associado ao processo de purificação [a separação da proteína humana do leite animal', diz Rumpf. A proteína em si não parece ser a causa, afirma Leite.
A possibilidade que certamente mais assombra a PPL, entretanto, é outra. 'Pode ser que simplesmente não seja possível criar um tratamento assim', diz Leite. 'Deve estar faltando alguma coisa.'
Se for o caso, o 'milagre' biotecnológico ainda vai ter de esperar.
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