"Faltam estudos sobre transgênicos"
Prensa
Gazeta do Povo, Curitiba, Brasil, 31-3-02
"Faltam estudos sobre transgênicos"
ROMEU DE BRUNS NETO
O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) não concorda com a liberação do comércio de produtos transgênicos. Segundo Sezifredo Paz, consultor técnico do Idec e secretário executivo do Fórum Nacional das Entidades Civis de Defesa do Consumidor, o que se quer é que seja respeitado o direito à informação dos consumidores.
Gazeta do Povo - Quais são os riscos dos alimentos transgênicos para o consumidor?
Sezifredo Paz - Para nós, do Idec, o principal aspecto dessa discussão é que esses riscos não foram avaliados. Esses produtos estão sendo liberados no mundo sem os estudos adequados. O problema é que os transgênicos representam uma transformação muito grande na base da alimentação. Essa mudança teria de ser precedida de toda a cautela. Não é só o Idec que diz isso. Cientistas do mundo inteiro recomendam que haja uma revisão nos procedimentos de liberação desses alimentos. É importante que fique claro que as organizações de consumidores do Brasil não são contra, por princípio, ao uso da biotecnologia na produção dos alimentos. Queremos que seja respeitado o direito de escolha e de informação dos consumidores.
Alguns dos defensores dos transgênicos dizem que a posição de organismos como o Idec é um retrocesso à Idade Média, uma espécie de fundamentalismo anti-ciência.
Dois cientistas espanhóis de renome recentemente disseram que há uma ausência de trabalhos científicos que respaldem a afirmação de que esses alimentos são seguros. Na verdade, quem defende os transgênicos pratica um ato de fé que não tem respaldo na ciência. A boa ciência manda avaliar todos os riscos antes de se adotar uma nova tecnologia.
Qual a dificuldade de se liberar os transgênicos com normas mais rigorosas no Brasil?
Existe uma pressão muito grande das empresas de biotecnologia. Provavelmente, elas investiram muito e agora gostariam de ter o retorno financeiro. Alguns países adotaram um modelo de liberação bastante flexível, mas mesmo nos Estados Unidos esse modelo é questionado. Além disso, há uma pressão de setores ligados à agricultura e os outros ministérios (Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente) acabam cedendo.
A proposta de rotulagem do governo é para os alimentos com mais de 4% de ingredientes transgênicos. Por que não uma rotulagem ampla?
As empresas responsáveis por produtos transgênicos querem apresentá-los com supostas vantagens para o agricultor, mas não querem que os consumidores saibam. Temem uma rejeição. Essa rotulagem proposta pelo governo não rotula nada. Não há razões técnicas nem legais que respaldem essa questão dos 4%. A maioria dos industralizados com ingredientes transgênicos será excluída. Para nós, é inadmissível que os consumidores não saibam o que estão comendo. O Idec questiona três aspectos na Justiça: a avaliação dos riscos para a saúde e para o meio ambiente e pede uma rotulagem plena. A proposta do governo é inadequada.
Como o Idec acompanha os recentes casos de plantio ilegal de soja transgênica no Paraná?
Com interesse. Estamos vendo que o governo do estado, a Secretaria da Agricultura e o Ministério da Agricultura estão agindo. Estão tendo compromisso com produtores e com a própria Justiça já que o plantio é proibido no Brasil. Lamentavelmente, a irregularidade existe, mas não devemos condenar toda a safra paranaense. A quantidade de propriedades não é tão grande.
Fala-se que após esta geração de transgênicos, que traz benefícios para o produtor, virá uma segunda com vantagens para o consumidor, como baixo teor de calorias e alto valor proteico, e ainda uma terceira, que vai prevenir doenças. Como o senhor avalia isso?
Para nós consumidores, toda e qualquer nova tecnologia implica em saber se os riscos foram bem avaliados. A primeira geração não traz nenhum benefício para os consumidores. As segunda e terceira gerações são apenas promessas. Não existe nenhum produto em estágio de liberação comercial desses tipos. Independente disso, há a necessidade de uma sólida regulamentação quanto à avaliação de risco, além do direito à informação. Só assim a população e os consumidores poderão ter confiança nesses produtos.
O Idec já fez alguns testes para detecção de alimentos com ingredientes transgênicos, presentes nos supermercados brasileiros. Alguma nova bateria de testes está prevista?
Queremos que o próprio governo passe a fazer isso. Que a vigilância sanitária acompanhe de perto essa questão, principalmente nas categorias de produtos em que já foi detectada a presença de transgênicos.
Dentro dos temas a que o Idec se dedica qual o grau de importância dos transgênicos?
Essa é uma preocupação em praticamente todas as organizações de consumidores do mundo, mesmo onde já houve a liberação. Atualmente, os alimentos do mundo inteiro apresentam riscos. A alimentação está contribuindo para a ocorrência de doenças graves, como no caso da presença de resíduos de antibióticos usados na pecuária e também de agrotóxicos. No Brasil, temos uma quantidade de alimentos básicos, como a carne e o leite, em que não há nenhum controle em pelo menos metade do que se consome no país.
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